E lá andava eu: à tona, à superfície.
Calcando as águas como Jesus Cristo, pulando sobre elas como Jesus Cristo em menino.
Orgulhoso dos meus feitos e arrependido pelos feitos dos outros. Mas caminhando nas águas.
Sem saber, sem sequer imaginar, que essas águas estavam mortas, pantanosas, fétidas.
E depois cai.
quarta-feira, 7 de agosto de 2013
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
Idol
Tenho exactamente a idade dos meus ídolos, quando eram meus ídolos, e não sou ídolo de ninguém - excepto de mim próprio, às vezes.
Boa.
Boa.
sexta-feira, 25 de maio de 2012
A Pedido
Eu estava morto e voltei a morrer
E agora sinto toda uma nova vida na morte
É como se navegasse à deriva, à mercê da sorte
Aflito com os ponteiros do relógio impermeável à água salgada
Deste mar triste e torpe.
Deus ajuda a quem muda
E de quem não muda, trata o Diabo?
E agora sinto toda uma nova vida na morte
É como se navegasse à deriva, à mercê da sorte
Aflito com os ponteiros do relógio impermeável à água salgada
Deste mar triste e torpe.
Deus ajuda a quem muda
E de quem não muda, trata o Diabo?
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
A 8.ª Maravilha
A Oitava Maravilha
Dá nojo ver quer pode
E não quer ser melhor
Porque quem não pode sabe
A que sabe o seu suor
Dá pena ver quem quer ser especial
Ser reduzido por quem não aguenta:
A sua própria normalidade
A sua própria mortalidade
O seu complexo de inferioridade
Tentar ser melhor é a oitava maravilha
Não o ser mas ter a consciência tranquila
Mas quem não quer ver
E prefere ignorar
Depois não pode vir dizer
Que é apto a amar
E é aqui que radica
O nosso ver desigual
Tu pensas que chega ter
Eu acho que nem aprendi o essencial
Tentar ser melhor é a oitava maravilha
Não o ser mas ter a consciência tranquila
Vais continuar a insistir, vais continuar a fazer-me passar por parvo, só estás a cavar um poço para seres ainda mais amargo, é que eu, pior ou melhor, sobrevivo e tu parece que nem sabes de que é feito um amigo, um amigo não serve só para dizer amém, um amigo serve para te tirar do escuro e desses há poucos quem.
Tentar ser melhor é a oitava maravilha
Não o ser mas ter a consciência tranquila.
PS - Praí 2006/7
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
Obrigado
Aos vinte e três Senhores brasileiros que vieram ver este moribundo blog na semana passada.
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
Greve
Artigo 536.º / n.º 1 do Código do Trabalho:
A greve suspende o contrato de trabalho de trabalhador aderente, incluindo o direito à retribuição e os deveres de subordinação e assiduidade.
Assim sendo, um reconhecimento pela coragem de todos aqueles que, para além de perderem um dia de salário, põem em causa o seu emprego junto das entidades patronais que olham de lado para os trabalhadores que reclamam e reivindicam pelos seus legítimos direitos.
Assim sendo, um reconhecimento pela coragem de todos aqueles que, para além de perderem um dia de salário, põem em causa o seu emprego junto das entidades patronais que olham de lado para os trabalhadores que reclamam e reivindicam pelos seus legítimos direitos.
terça-feira, 8 de novembro de 2011
This is a Low
But it won't hurt you
When you are alone it will be there with you
Finding ways to stay solo
When you are alone it will be there with you
Finding ways to stay solo
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
Chuva
Chovi-me para fora de mim
e agora tudo são águas passadas
e as amarras tão delicadas
que me prendiam ao que um dia sonhei ser
escorreram para o ralo
e descansaram em paz.
Pequenos bebés voadores atirados de canhões de ar fazem as delícias dos tolos no circo.
Mas onde está o meu nariz de palhaço?
Eu nunca tive nariz de palhaço e o que me tentaram vender foi na corrente.
e agora tudo são águas passadas
e as amarras tão delicadas
que me prendiam ao que um dia sonhei ser
escorreram para o ralo
e descansaram em paz.
Pequenos bebés voadores atirados de canhões de ar fazem as delícias dos tolos no circo.
Mas onde está o meu nariz de palhaço?
Eu nunca tive nariz de palhaço e o que me tentaram vender foi na corrente.
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
Quando Eu Morrer
Quando eu morrer
Eu não quero um funeral festivo
Quando eu morrer
Eu não quero que chorem sem motivo
Quando eu morrer
Eu não vou estar cá
Mas venho te ver
E vou falar-te bem baixinho
Para que nunca te esqueças da minha voz
Para que nunca te esqueças que num instante já houve um nós.
Eu não quero um funeral festivo
Quando eu morrer
Eu não quero que chorem sem motivo
Quando eu morrer
Eu não vou estar cá
Mas venho te ver
E vou falar-te bem baixinho
Para que nunca te esqueças da minha voz
Para que nunca te esqueças que num instante já houve um nós.
Promessas
Fica a promessa:
Se alguma vez uma música minha passar na rádio, faço uma tatuagem no antebraço esquerdo com a silhueta dos beatles.
Cfr. canto superior direito.
Se alguma vez uma música minha passar na rádio, faço uma tatuagem no antebraço esquerdo com a silhueta dos beatles.
Cfr. canto superior direito.
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
A Viagem II
Entrou na sala.
A palidez despejada na cara da mãe de Madalena, como um farol nocturno guiando os barcos na escuridão baça do seu vestido negro, feria os olhos daqueles meninos.
A dita personagem ostentava, ainda, um xaile igualmente negro, ainda mais negro, muito trabalhado nas pontas.
A maioria dos meninos não reconheceram a mãe da Madalena de imediato.
A identidade do vulto foi sendo decifrada aos poucos, conforme as imagens surgiam desconexas naquelas imberbes cabeças, as imagens da mãe a deixar Madalena à porta da escola, do outro lado da rua.
E Madalena, como que carregando o peso do mundo em seus ombros, percorria os corredores até à sala dos meninos de oito anos, fixando invariavelmente seus olhos no chão - misto de areia do recreio e de pequenos fios de cotão.
- Posso falar-lhe? - disse sem sequer se apresentar ou apresentar uma saudação.
- Aqui? - inquiriu a medo a professora.
A mãe de Madalena levou levemente a mão direita ao nariz, esfregou a testa e tapou por instantes os seus olhos.
Quando voltou a abri-los já se encontrava a escassos centímetros da professora.
Aí, virando-se de costas para os meninos, e colocando a mão esquerda sobre a mesa da professora, agarrando-se ao tampo para não cair, inspirou fundo e, de um só fôlego, como se da última réstia de ar que os seus pulmões eram capazes de suster se tratasse, disse:
- O pai da Madalena morreu.
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
A Viagem I
Era a algazarra do costume na sala dos meninos de oito anos.
Os aviões de papel pareciam ondular ao som da gritaria uniforme, da qual, por vezes, se conseguiam apanhar bocados de conversas inconsequentes:
"Dou-te cinco pelo brilhante" ou o típico, mas não menos verdadeiro, "(...) senão vou fazer queixa à professora."
E, no meio de toda aquela confusão, a dita professora estava tranquilamente sentada na sua secretária, a qual ocupava o centro do estrado junto ao quadro de lousa.
Momentos antes, os meninos tinham entregue a composição sobre "a família" que a professora exigira de "trabalho para casa".
Havia, pois, que corrigir aquele amontoado de incorrecções gramaticais, erros ortográficos e faltas de concordância verbal que, supõe-se, deixariam qualquer um de cabelos em pé e a amaldiçoar o dia em que escolheram tão nobre profissão.
Qualquer um à excepção daquela professora.
A verdade é que, fruto do tempo, e também por força das suas próprias características pessoais - impessoalidade, distanciamento e espírito metódico -, a professora conseguia corrigir, naquele ambiente de batalha campal, uma por uma, todas as composições dos meninos.
E fazia-o ali como o faria em qualquer outro local ou ambiente: na paz da sua casa e na companhia solitária do seu gato ou na confusão alienada do recreio - desde que à sua disposição se encontrasse uma escrivaninha e uma caneta vermelha, a professora tinha tudo o que precisava para levar a cabo a sua meritória tarefa.
Não é então de estranhar que nem ela nem os meninos se tivessem apercebido da entrada na sala daquele vulto negro, ainda soluçante e carregado.
Era a mãe de Madalena.
sábado, 24 de setembro de 2011
A Flor II
Se não cuidares bem dela
ela seca.
Seca como uma flor.
Em casa de ferreiro não se como com as mãos,
usa-se o espeto que é de pau.
E se o gepeto é mau, então come-se com os pés, que a flor murcha também é uma flor.
Só não atrai mais as abelhas.
Esta era fácil de adivinhar, mas difícil era prever o momento.
ela seca.
Seca como uma flor.
Em casa de ferreiro não se como com as mãos,
usa-se o espeto que é de pau.
E se o gepeto é mau, então come-se com os pés, que a flor murcha também é uma flor.
Só não atrai mais as abelhas.
Esta era fácil de adivinhar, mas difícil era prever o momento.
terça-feira, 20 de setembro de 2011
Estatística
Lá vai ela, bela e formosa, a confiar nas estatísticas:
sete mortos por um tufão
na caixa negra de um avião
o mundo de pernas para o ar outra vez
com oito erros de gramática no português
Pena confundir a moda com a média
Baralhar a aritmética com a métrica
Descurar no pormenor
E tocar em fá maior
Grandes Pensadores Sociais dão orientações, eu não.
sete mortos por um tufão
na caixa negra de um avião
o mundo de pernas para o ar outra vez
com oito erros de gramática no português
Pena confundir a moda com a média
Baralhar a aritmética com a métrica
Descurar no pormenor
E tocar em fá maior
Grandes Pensadores Sociais dão orientações, eu não.
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
domingo, 11 de setembro de 2011
O Contador de Histórias - Fim
Num rasgo de lucidez impossível para uma criança tão pequena, o menino sentiu a história do contador de histórias como se fosse a sua própria história e não aguentou esse sentimento dentro do seu também pequeno peito.
As lágrimas escorriam-lhe pela cara sem que as sentisse cair.
Correu o mais que pôde para o avô e, já abraçado, com a cabeça tombada no seu ombro, inquiriu: "Nunca me vais abandonar, pois não?"
O avô não respondeu.
Limitou-se a abraçá-lo com um pouquinho mais de força e a deslizar a sua mão do pescoço até o cocuruto da cabeça, acariciando-lhe, assim, os cabelos.
Foi o suficiente - é sempre suficiente.
sábado, 10 de setembro de 2011
Paradox
No dia em que lhe disseram que parece não ter defeitos, apontaram-lhe vários.
A vida é um paradoxo.
Resta a sensação de dever cumprido / comprido.
A vida é um paradoxo.
Resta a sensação de dever cumprido / comprido.
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